Most things never happen. Things that I fear. Things that I dream. Things that I love.
Sunday, October 19, 2014
Nunca lidei muito bem com o facto de a vida ser injusta. Cresci a ouvir dizer que o trabalho compensava, que a vida era daqueles que se esforçavam e faziam o melhor que podiam pelos seus objectivos. Aqui estou eu, 24 anos, médica, sentada no chão da minha sala a chorar como uma criança a quem foi tirado um chupa-chupa ainda antes de ele me ser tirado. Falta um mês. A contagem decrescente começa amanhã, e eu não consigo mais. Não sei fazer melhor do que o que tenho feito, e claramente o que tenho feito não chega. Tento relativizar. Tento ficar feliz por quem está melhor do que eu. Mas não consigo. Na verdade só me apetece mandar toda a gente à merda, e gritar bem alto que era suposto o trabalho compensar, que era suposto as coisas correrem-me bem a mim, que estou a trabalhar há um ano, que tenho um objectivo traçado, que sei o que quero. Que me enganaram. É isso que sinto, que fui enganada. Que abdiquei de um ano da minha vida por uma promessa vã. Que me tornei uma pior pessoa por nada. Porque sim, tornei-me uma pior pessoa. E não posso fazer nada. Tenho de continuar a levantar-me cedo, estudar todo o dia e esperar que a noite chegue para poder ir dormir e esperar pelo dia seguinte, que há-de ser igual. Sabendo que não vai dar certo. Que não vai ser suficiente. E que vou ter de decidir o que fazer quanto a isso.
Wednesday, October 15, 2014
Dias maus.
Os dias dividem-se em dois tipos: os dias maus e os dias péssimos. Já não custa estudar. Já não custa passar o dia sentada numa biblioteca com um livro à frente, já é o normal. Deixei de me questionar 'o que vou fazer hoje?' há muito tempo, e quando acordo sei que o dia vai ser passado a estudar, a ler, a tentar decorar mais aquele pormenor. Já estou resignada, e na maior parte dos dias sinto-me farta, mas não passa disso. Mas há dias péssimos. Dias em que nada parece correr bem, a página que não vira, as frases que são lidas vezes e vezes sem conta e continuam com um significado misterioso qualquer, as perguntas que têm 5 alíneas que parece que nunca vimos à frente e que afinal temos sublinhadas com marcador, caneta e com um ponto de exclamação ao lado. Há dias em que a nota alvo parece ainda mais longe do que o que estava há um ano atrás. Há dias em que o meu cérebro não consegue pensar em mais nada a não ser 'tu não vais conseguir. tu não vais conseguir e não vais querer passar por isto tudo outra vez e vais acabar a fazer algo de que não gostas PARA O RESTO DA TUA VIDA'. Há dias mesmo maus, e hoje foi um deles. E a minha vontade neste momento é enfiar-me na cama e chorar até o dia 20 de Novembro passar.
Sunday, September 28, 2014
Há que ser coerente.
Não acredito no destino, nos astros, nos signos, nos desígnios, numa entidade superior ou em qualquer outra coisa que não a capacidade que temos de decidir fazer isto ou aquilo, optar por A em vez de B. Mas adoro a balada astral do Miguel Araújo com a Inês Viterbo. Não acredito no amor para sempre, na expressão "o meu mais-que-tudo", "cara-metade" e tantas outras. Mas quero para mim o que os meus avós tiveram. Não acredito em amor à primeira vista, blind dates e outros que tal. Mas inscrevi-me no tinder.
A questão é: não sou coerente. Sei aquilo em que acredito, sei os valores que tenho, e sei que nem sempre ajo de acordo com eles. Quero ser cirurgiã (e trabalhar todos os dias a maior parte dos dias), mas quero ter 4 filhos e passar tempo de qualidade com eles. Não sou coerente. Tenho 24 anos e às vezes ainda me comporto como uma adolescente de 15. E ainda dizem que sou demasiado crescida para a idade que tenho...
A questão é: não sou coerente. Sei aquilo em que acredito, sei os valores que tenho, e sei que nem sempre ajo de acordo com eles. Quero ser cirurgiã (e trabalhar todos os dias a maior parte dos dias), mas quero ter 4 filhos e passar tempo de qualidade com eles. Não sou coerente. Tenho 24 anos e às vezes ainda me comporto como uma adolescente de 15. E ainda dizem que sou demasiado crescida para a idade que tenho...
Se estiverem interessados em alguém que está a estudar para o Harrison aproveitem, que é para a vida. Nunca vão ver essa pessoa tão mal como ela está agora: nem com tão pouco tempo livre, nem com tão pouca paciência, nem com as sobrancelhas por arranjar durante tantos meses, a maquilhagem por usar, nem a comer tanta porcaria como a que come agora.
Por outro lado, se estão a estudar para o Harrison talvez não seja a melhor altura para se interessarem por alguém: essa pessoa não sabe que vocês não têm sempre tão pouco tempo livre, tão pouca paciência, tanto pêlo e tão pouco brio.
Pronto, era isso. Agora vou ali tomar um duche, que felizmente isso ainda faço diariamente.
Saturday, September 20, 2014
Faltam 2 meses.
O estudo intensivo tem-me ensinado muito para além do que vem no livro. Aprendi que as pessoas mudam e crescem (às vezes em sentidos opostos), e que isso é normal, porque hão-de aparecer outras pessoas a mudar e a crescer no mesmo sentido que nós. Aprendi a gerir prioridades e a não me deixar sufocar (ainda estou a aprender isto, na verdade). Aprendi que todos temos um bocadinho de loucura dentro de nós, à espera do momento ideal para se revelar. Aprendi a escolher o melhor lugar da biblioteca (não, não vos digo os meus critérios!). Aprendi que às vezes compensa dormir menos 20 minutos para ter tempo para tomar o pequeno-almoço na esplanada e começar o dia com gargalhadas embora o dia nos reserve 10 horas de desespero. Aprendi a ser flexível com os meus planos, a ser flexível com o meu lugar, a ser flexível com o meu material de estudo... Na verdade isso não aprendi, mas aprendi que devia aprender isso (conta, certo?). Aprendi a importância de partilhar os meus medos com alguém, mesmo aqueles que eu não sabia que tinha. Aprendi a prepara refeições para uma semana inteira! Aprendi que existe um mercado negro de marcadores stabilo boss. Aprendi a fazer mais gestos bonitos pelas outras pessoas. E estou a tentar aprender a ser um bocadinho feliz todos os dias.
Como podem ver estou a aprender muita coisa que não vem para o exame. Vamos esperar que tambem esteja a aprender alguma coisa que venha.
Tuesday, September 9, 2014
Tiro 3 dias de férias, que se somam aos 4 dias tirados no início de Julho e que perfaz um total de 7 dias desde o início de Janeiro. Abro as bibliotecas todas as manhãs, fecho-as em alguns dias, noutros estou em casa à hora do jantar para dar uso à secretária que tenho no quarto. Já lá vão 2 meses e meio de estudo intensivo, 10 meses se contarmos o tempo em que o dia foi dividido entre estudo e estágio. Ando de mochila às costas, o conhecimento a pesar figurativa e literalmente, as costas curvas para suportar o peso dos livros. Revejo tabelas no metro, post its com as manifestações, as alterações genéticas e o prognóstico de doenças que nunca vi, e das quais nunca tinha ouvido falar até este livro surgir à minha frente. Pelo meio mantenho a família, que liga de vez em quando para saber se está tudo bem, o meu pai a perguntar 'então, já sabes tudo?' uma e outra vez e eu sem coragem para dizer que tudo nunca se sabe. Caminho com outros tantos ao meu lado, todos no mesmo barco, todos agarrados ao bote salva-vidas que nos mantém à superfície e não nos deixa afogar no meio das lágrimas que correm com a terapêutica do mieloma múltiplo. Preocupo-me por 1 milésimo de segundo com o futuro mas rio assim que a senhora do banco me fala nas vantagens que virei a ter quando receber 3000 euros de ordenado (mas ela sabe que eu vou só ser médica?); lá lhe peço que me fale nas vantagens para quem recebe os 1200, porque é isso que me interessa, que é isso que hei-de receber durante muito, muito, muito tempo. Trato de papelada e desembolso 210 euros para me inscrever na Ordem, 'só começa a pagar quotas no próximo ano!' - obrigadinha pelo favor! Abro uma notícia qualquer com médicos no título e somos todos iguais, uns sacanas, uns gatunos que recebem 8000 euros por mês e juntam o privado e o público e não põem os pés no hospital e não querem saber dos doentes para nada. Rio-me com o rótulo que me foi posto ainda sem ter começado sequer a trabalhar, viro a página e tento a todo o custo decorar a lista de supermercado de causas de hiponatrémia, como é possível saber isto quando há 6 anos essa palavra nem existia no meu dicionário? Respiro fundo e digo a mim mesma que um dia esta informação pode ser útil (ou não.). Que esta foi a minha opção, e que não importa a quantidade de insultos, onde me sinto mesmo feliz é dentro de um bloco operatório, com as mãos na massa a arranjar uma solução para os problemas, mesmo que para isso tenha de estudar a maior parte do dia para um dia poder trabalhar a maior parte do tempo e receber 1200 euros que aos olhos dos outros são 8000. Respiro fundo e só peço que o trabalho compense. Porque estou cansada e já não tenho a certeza de ter forças de fazer isto tudo de novo no próximo ano, e talvez até nem fosse infeliz a trabalhar das 9 às 5 num sítio qualquer que não me fizesse o cabelo cair com o stress.
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