Most things never happen. Things that I fear. Things that I dream. Things that I love.
Saturday, September 20, 2014
Faltam 2 meses.
O estudo intensivo tem-me ensinado muito para além do que vem no livro. Aprendi que as pessoas mudam e crescem (às vezes em sentidos opostos), e que isso é normal, porque hão-de aparecer outras pessoas a mudar e a crescer no mesmo sentido que nós. Aprendi a gerir prioridades e a não me deixar sufocar (ainda estou a aprender isto, na verdade). Aprendi que todos temos um bocadinho de loucura dentro de nós, à espera do momento ideal para se revelar. Aprendi a escolher o melhor lugar da biblioteca (não, não vos digo os meus critérios!). Aprendi que às vezes compensa dormir menos 20 minutos para ter tempo para tomar o pequeno-almoço na esplanada e começar o dia com gargalhadas embora o dia nos reserve 10 horas de desespero. Aprendi a ser flexível com os meus planos, a ser flexível com o meu lugar, a ser flexível com o meu material de estudo... Na verdade isso não aprendi, mas aprendi que devia aprender isso (conta, certo?). Aprendi a importância de partilhar os meus medos com alguém, mesmo aqueles que eu não sabia que tinha. Aprendi a prepara refeições para uma semana inteira! Aprendi que existe um mercado negro de marcadores stabilo boss. Aprendi a fazer mais gestos bonitos pelas outras pessoas. E estou a tentar aprender a ser um bocadinho feliz todos os dias.
Como podem ver estou a aprender muita coisa que não vem para o exame. Vamos esperar que tambem esteja a aprender alguma coisa que venha.
Tuesday, September 9, 2014
Tiro 3 dias de férias, que se somam aos 4 dias tirados no início de Julho e que perfaz um total de 7 dias desde o início de Janeiro. Abro as bibliotecas todas as manhãs, fecho-as em alguns dias, noutros estou em casa à hora do jantar para dar uso à secretária que tenho no quarto. Já lá vão 2 meses e meio de estudo intensivo, 10 meses se contarmos o tempo em que o dia foi dividido entre estudo e estágio. Ando de mochila às costas, o conhecimento a pesar figurativa e literalmente, as costas curvas para suportar o peso dos livros. Revejo tabelas no metro, post its com as manifestações, as alterações genéticas e o prognóstico de doenças que nunca vi, e das quais nunca tinha ouvido falar até este livro surgir à minha frente. Pelo meio mantenho a família, que liga de vez em quando para saber se está tudo bem, o meu pai a perguntar 'então, já sabes tudo?' uma e outra vez e eu sem coragem para dizer que tudo nunca se sabe. Caminho com outros tantos ao meu lado, todos no mesmo barco, todos agarrados ao bote salva-vidas que nos mantém à superfície e não nos deixa afogar no meio das lágrimas que correm com a terapêutica do mieloma múltiplo. Preocupo-me por 1 milésimo de segundo com o futuro mas rio assim que a senhora do banco me fala nas vantagens que virei a ter quando receber 3000 euros de ordenado (mas ela sabe que eu vou só ser médica?); lá lhe peço que me fale nas vantagens para quem recebe os 1200, porque é isso que me interessa, que é isso que hei-de receber durante muito, muito, muito tempo. Trato de papelada e desembolso 210 euros para me inscrever na Ordem, 'só começa a pagar quotas no próximo ano!' - obrigadinha pelo favor! Abro uma notícia qualquer com médicos no título e somos todos iguais, uns sacanas, uns gatunos que recebem 8000 euros por mês e juntam o privado e o público e não põem os pés no hospital e não querem saber dos doentes para nada. Rio-me com o rótulo que me foi posto ainda sem ter começado sequer a trabalhar, viro a página e tento a todo o custo decorar a lista de supermercado de causas de hiponatrémia, como é possível saber isto quando há 6 anos essa palavra nem existia no meu dicionário? Respiro fundo e digo a mim mesma que um dia esta informação pode ser útil (ou não.). Que esta foi a minha opção, e que não importa a quantidade de insultos, onde me sinto mesmo feliz é dentro de um bloco operatório, com as mãos na massa a arranjar uma solução para os problemas, mesmo que para isso tenha de estudar a maior parte do dia para um dia poder trabalhar a maior parte do tempo e receber 1200 euros que aos olhos dos outros são 8000. Respiro fundo e só peço que o trabalho compense. Porque estou cansada e já não tenho a certeza de ter forças de fazer isto tudo de novo no próximo ano, e talvez até nem fosse infeliz a trabalhar das 9 às 5 num sítio qualquer que não me fizesse o cabelo cair com o stress.
Sunday, August 24, 2014
Dos tempos difíceis
Este ano tem sido difícil. Difícil ao ponto de não conseguir descrever quão difícil está a ser. Estão a ver aquela altura do semestre em que têm demasiadas horas de aulas obrigatórias por dia e têm de estudar para um teste/frequência/o que quer que lhe chamem? Imaginem isso durante cerca de 8 meses, seguido de 5 meses de estudo 'tipo época de exames'. Juntem a isso o stress de estar toda a gente stressada à vossa volta (incluindo vocês mesmos), o facto de serem dependentes de bibliotecas e estas estarem a fechar uma por uma, e a vossa família e amigos não-de-medicina achar que estão a exagerar no estudo/na dificuldade do exame/ nas horas que dizem passar a estudar. É demasiado. Houve alturas em que julguei que estava a perder o juízo. Já chorei de desespero no meio da biblioteca (maldita terapêutica do mieloma múltiplo!). Já telefonei à minha mãe duas vezes seguidas para lhe dizer o mesmo por não me lembrar que já lhe tinha ligado, já deixei um café ficar frio porque não me lembrei de o tomar, e já me esqueci se tinha tomado café ou não. Estou cansada, ando cansada e a coisa não está para melhorar. Mas já faltam menos de 3 meses. E as pessoas têm ajudado, algumas pelo menos. Nos intervalos do estudo arranjam-se umas noites para beber umas somerbys e discutir o sexo dos anjos, uma horinha ou outra para dar um saltinho à praia, e fortalecem-se amizades, porque é nas alturas de desespero que isso geralmente acontece. E planeia-se a viagem final do curso, acrescentam-se items à to-do list do próximo ano (que creio já ter mais fins-de-semana ocupados do que aqueles que um ano tem), e tenta-se ignorar o facto de mais cedo ou mais tarde ter de se começar a pensar no hospital onde se vai entrar como médico pela primeira vez (faz de conta que ainda há muito tempo...).
E no meio disto tudo o exame está quase aí (já faltam menos de 3 meses!)
Friday, June 20, 2014
Wednesday, May 7, 2014
Sunday, April 27, 2014
O meu avô ensinou-me a fazer palavras cruzadas.
Tinha sempre revistas pequeninas em casa, com caras de pessoas famosas que não conhecíamos, nas quais desenhávamos bigodes e dentes pretos e chapéus. Ao sábado trazia sempre uma raspadinha para cada um - mais, se na semana anterior tivesse havido prémio. Quando percebeu que gostávamos de biscoito da teixeira, começou a trazer sempre que lá íamos. E quando percebeu que eu gostava de S. Marcos, começou a trazer também. O meu avô bebia sempre refresco de café no verão, primeiro com água das pedras, depois só com gelo, quando o médico proibiu a água com gás. Fazia brinquedos com rolhas de garrafa de vinho e cordéis para nós brincarmos com os gatos que por lá andavam. E dizia "o último a acabar a sopa é uma carroça velha!", e às vezes deixava-nos ganhar. O meu avô era sportinguista ferrenho, mas telefonava sempre que o Porto ganhava o que quer que fosse, só para dar os parabéns. Já há uns anos que o meu avô dependia de uma cadeira de rodas, mas manteve sempre o sentido de humor e mandava piadas - às vezes um bocadinho inoportunas (mais uma coisa que herdei?). Era teimoso - é de família!- mas não gostava da teimosia dos outros. De uma das últimas vezes que estive com ele, enquanto lhe dava o lanche, eu disse "Oh avô, come lá mais um bocadinho!", ao que me respondeu: "Não me chames avô!, se estás a teimar não me chames avô!".
O meu avô morreu há dois dias, mas os dias foram tão longos que pareceram semanas. E tenho saudades. O mau de não se acreditar em nada é que não acredito que esteja a jogar cartas na companhia dos amigos, enquanto espera por umas pataniscas de bacalhau a meio da tarde. Mas não preciso de acreditar em nada para saber que não vai ser esquecido - criou uma família grande que o vai recordar durante muitos, muitos anos.
O meu avô morreu há dois dias, mas os dias foram tão longos que pareceram semanas. E tenho saudades. O mau de não se acreditar em nada é que não acredito que esteja a jogar cartas na companhia dos amigos, enquanto espera por umas pataniscas de bacalhau a meio da tarde. Mas não preciso de acreditar em nada para saber que não vai ser esquecido - criou uma família grande que o vai recordar durante muitos, muitos anos.
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