Tinha sempre revistas pequeninas em casa, com caras de pessoas famosas que não conhecíamos, nas quais desenhávamos bigodes e dentes pretos e chapéus. Ao sábado trazia sempre uma raspadinha para cada um - mais, se na semana anterior tivesse havido prémio. Quando percebeu que gostávamos de biscoito da teixeira, começou a trazer sempre que lá íamos. E quando percebeu que eu gostava de S. Marcos, começou a trazer também. O meu avô bebia sempre refresco de café no verão, primeiro com água das pedras, depois só com gelo, quando o médico proibiu a água com gás. Fazia brinquedos com rolhas de garrafa de vinho e cordéis para nós brincarmos com os gatos que por lá andavam. E dizia "o último a acabar a sopa é uma carroça velha!", e às vezes deixava-nos ganhar. O meu avô era sportinguista ferrenho, mas telefonava sempre que o Porto ganhava o que quer que fosse, só para dar os parabéns. Já há uns anos que o meu avô dependia de uma cadeira de rodas, mas manteve sempre o sentido de humor e mandava piadas - às vezes um bocadinho inoportunas (mais uma coisa que herdei?). Era teimoso - é de família!- mas não gostava da teimosia dos outros. De uma das últimas vezes que estive com ele, enquanto lhe dava o lanche, eu disse "Oh avô, come lá mais um bocadinho!", ao que me respondeu: "Não me chames avô!, se estás a teimar não me chames avô!".
O meu avô morreu há dois dias, mas os dias foram tão longos que pareceram semanas. E tenho saudades. O mau de não se acreditar em nada é que não acredito que esteja a jogar cartas na companhia dos amigos, enquanto espera por umas pataniscas de bacalhau a meio da tarde. Mas não preciso de acreditar em nada para saber que não vai ser esquecido - criou uma família grande que o vai recordar durante muitos, muitos anos.
Most things never happen. Things that I fear. Things that I dream. Things that I love.
Sunday, April 27, 2014
Monday, April 21, 2014
Dizem-me que procuro alguém que não existe.
Existir existe, e é o homem da minha vida. Eu é que não sou a mulher da vida dele.
Tuesday, March 18, 2014
Saturday, February 15, 2014
Ontem apareceu um documento onde é proposto acabar com a prova nacional de seriação de 2014 (o famoso exame de acesso à especialidade aka "O Harrison") e juntar o actual 6º ano e o actual 5º ano numa prova nacional de selecção em 2015.
No dia dos namorados fui informada de que a minha relação com o Harrison - a mais estável e promissora (porque ia durar pelo menos até Novembro deste ano) dos últimos tempos - pode estar condenada. Até essa...
No dia dos namorados fui informada de que a minha relação com o Harrison - a mais estável e promissora (porque ia durar pelo menos até Novembro deste ano) dos últimos tempos - pode estar condenada. Até essa...
Friday, February 14, 2014
Dia dos Namorados.
A vantagem de dividir os meus dias entre o hospital, a biblioteca municipal e o conforto do meu lar é que não tenho de levar com tudo cheio de corações.
(E passou mais um dia dos namorados sem eu dizer que isto é tudo uma palhaçada.)
(E passou mais um dia dos namorados sem eu dizer que isto é tudo uma palhaçada.)
Monday, December 30, 2013
Friday, December 27, 2013
A dada altura, na minha adolescência, passei por uma fase menos boa da minha vida. Fiz os meus pais passar por alguns maus bocados, e fiz com que eu própria passasse por eles. Muitas pessoas tiveram conversas sérias comigo nessa altura. Queriam perceber o que se passava; queriam que eu visse que nem tudo era mau, que havia muitas coisas pelas quais eu devia estar grata. Guardo comigo grande parte dessas conversas, ainda que na altura não lhes tenha dado grande valor.
Muitas dessas conversas foram com os meus pais, que nessa altura disseram coisas mais acertadas do que o que eles podem imaginar. Numa dessas conversas alguém me disse: "Sabes, Inês, tu ainda não sabes, mas ainda não és a pessoa que vais ser. Os próximos dez anos da tua vão condicionar quem és nos restantes sessenta; se trabalhares nos próximos dez anos pelos teus objectivos, se estudares, se cultivares as amizades, se te regeres pelos valores que te ensinámos, a probabilidade de teres uma vida menos boa é baixa. Agora, se optares pelo caminho mais fácil, se achares que trabalhar não compensa, que é melhor ficar isolada do que ter amigos, daqui a uns anos vai ser mais difícil. A vida não é um sprint, é uma prova de fundo."
Os dez anos acabam mais ou menos por esta altura.
Hoje sou eu que digo a mim mesma: "O próximo ano da tua vida vai condicionar os restantes cinquenta. Por isso trabalha. Estuda, aplica-te, define um objectivo e trabalha para o atingir. Isto não é um sprint, é uma prova de fundo."
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