Saturday, June 8, 2013

Sou uma naba total no que diz respeito a gás, caldeiras, e outras coisas que tal. Quando andaram a distribuir a inteligência para essas coisas eu devia estar distraída e não sobrou nada para mim. Quando digo que sou naba, é naba mesmo. Naba ao ponto de não saber olhar para uma torneira do gás e ver se está ligada ou desligada. Quando tem aquele manípulozinho ainda sou capaz de pensar um bocadinho e fazer a comparação com o manípulozinho dos sistemas de soros e tentar 'adivinhar', mas na verdade nunca cheguei a perceber se funciona da mesma forma ou não. 

E porque é que digo isto agora? Porque resolvi vir fazer um retiro de estudo para a terrinha e estou sem água quente e sem fogão. E já liguei e desliguei torneiras, e tentei todas as combinações possíveis e imaginárias de posições das três torneirinhas, e nada! Até que desisti e vim estudar, porque a minha vida não é esta. 

O que vale é que tenho um sistema fantástico que me resolve estas situações. Chama-se 'telefonar ao Pai'. A única questão é que só serve fora do horário de trabalho... 

(Eu juro que quando viver numa casa sozinha vou fazer o meu próprio manual de instruções para este tipo de coisas)

Monday, June 3, 2013

Cinco razões que hoje me fazem sentir velha:
1- O meu afilhado mais novo já anda a escrever histórias clínicas
2- A minha 'caloirinha' já vem falar comigo sobre linfomas do Sistema Nervoso Central (como se eu soubesse alguma coisa sobre o assunto)
3- As coisas de jeito que constavam nos planos eleitorais das duas listas que concorrem à AE eram coisas que já não me vão ser úteis
4- Sexta-feira tenho um almoço chamado 'Adeus aulas de Medicina (às quais não fomos)'
5- Hoje foi o primeiro dia da minha última semana de aulas (de sempre!*)




*A não ser que faça um doutoramento ou assim, o que não está de todo nos meus planos

Sunday, June 2, 2013

-And if I have to go, will you remember me?



Hoje é dia de Tom Waits como banda sonora.
(Se não conhecem Tom Waits façam um favor a vós mesmos e procurem no youtube. Comecem pela If I have to go, And I hope that I don't fall in with you, You can never hold back spring e quando derem por vós até a Bad liver and a broken heart é bonita)

Friday, May 31, 2013

Enquanto criança foi-me dado um ninho e fui ensinada a voar.

É essa a razão pela qual não consigo estar muito tempo em casa nem muito tempo longe dela.

Tuesday, May 28, 2013

Eis o e-mail que me apetecia enviar hoje

Caro Professor,

A ideia de que dar dois dias a toda a gente no início do semestre para se fazer um trabalho porque assim 'toda a gente está em pé de igualdade e faz o trabalho no mesmo tempo' é estúpida. Honestamente já não me lembro de nada do que fiz há dois meses e apresento daqui a dois dias.

Sinceramente,
IML

PS- A sua disciplina é parva e também não gosto particularmente de si.

Sunday, May 26, 2013

O meu futuro gato morreu.

Ainda não disse aos meus pais, mas cheira-me que a resposta vai ser: Viste? Eu disse-te que não durava um ano... 

Saturday, May 25, 2013

Conselhos para quem algum dia for vasculhar processos (vulgo projecto de investigação)

1- quando te derem a lista de doentes guarda-a bem. Em mais do que um sítio. Em algum sítio para além da pen ranhosa e a versão impressa. (porque pronto, as folhas podem desaparecer e a pen ficar louca e apagar dados. Mas pronto, não tem mal nenhum desde que já tenhas colhido os dados todos. excepto se... ver ponto 2)

2- testa a tua folha de colheita de dados porque pode-te ter faltado um pormenor qualquer (digamos, sei lá, o sexo!), e quando dás conta até começas a pôr, mas tens uma série de processos para trás em que não o puseste (mas não tem mal, porque vês o sexo pelo nome na lista de doentes, e até podes fazer isso depois; a não ser que.. pois... tenhas perdido a lista de doentes.)

3- faz a divisão dos processos entre as pessoas com tempo. (Pode acontecer que alguém fique com uma amigdalite - oh, a ironia! - dois dias antes do tempo limite para ter os dados informatizados, não vá mais à faculdade e more no fim do mundo e tu tenhas de trabalhar mais 30 processos do que o que devias.)


E é mais ou menos isto. De certeza que nas próximas duas semanas tenho mais conselhos, mas para já é (só) isto.


Thursday, May 23, 2013

Aconteceu nos quinze minutos de pausa depois de estarmos três horas a colher dados de processos no computador. Decidimos que estava na altura de um café e dirigimo-nos à máquina mais próxima, na sala de espera da Urgência Pediátrica. Quando lá chegámos estavam duas crianças de 7 ou 8 anos a carregar aleatoriamente nos botões. Sorri, disse 'Posso tirar um café?', introduzi o dinheiro, seleccionei a opção 'Café Pingado' e conversei 20 segundos com a minha colega. Quando a máquina apitou a miudinha pergunta-me: 'Posso tirar o café dali?'. Acenei com a cabeça. Ela levanta a tampinha, põe a mão no copo e eu digo 'Cuidado, está quente!'; tira a mão rapidamente, sorri-me e eu tiro o café da máquina. A minha colega introduz o dinheiro, selecciona a opção 'Café Cheio', conversa comigo 20 segundos, a máquina apita, a miudinha pergunta 'Posso tirar o café dali?', a minha colega diz 'Cuidado, está quente!', a miúda sorri, põe a mão no café... e deixa cair o copo dentro da máquina. A minha colega diz-lhe: 'Eu disse-te que estava quente...'; resposta da miúda: 'Oh, não tem mal, pois não? Podes pôr outra moeda que sai outro café!'. Foi tão natural, que não conseguimos não rir. E volta ao início: põe a moeda, selecciona a opção 'Café Cheio', 20 segundos de conversa, a máquina a apitar, e a miúda pergunta: 'Posso tentar agora? Só para ver se consigo...'. Desta vez olhei para o meu bolso, vi que não tinha mais moedas (e a minha colega também não) e tivemos de dizer que não. Mas gostei da  persistência da miúda.

Sunday, May 12, 2013

há dias em que preciso de espaço para mim.

tenho saudades de viver sozinha e decidir do meu dia.




hoje o máximo que posso fazer é trancar a porta do quarto, pôr uma música nos ouvidos e ignorar o resto do mundo.
estou cansada.

Wednesday, May 8, 2013

Aceitam-se sugestões



Há nova companhia lá para casa. Aceitam-se sugestões para nomes.

Para já estão em (grande) discussão os seguintes:
- Alheira
- Truflas


PS: de notar que os nomes das minhas cadelas são coisas muito invulgares. Uma é 'Um', outra 'Dois e outra 'Castanhiça'.

Tuesday, May 7, 2013

Uma das piores coisas que ser aluna de Medicina tem é não poder dizer 'Vais ver que vai correr tudo bem' como se faz quando alguém tem um problema de saúde, por sabermos que a probabilidade de não correr é grande.

Saturday, May 4, 2013

As saudades

Passou pouco mais de meio ano desde que vim de São Tomé e estou cheia de saudades. 


Saudades de tardes de domingo passadas assim, a dar um mergulho em cada praia por onde passávamos.


Saudades das macacadas das crianças com quem nos cruzávamos (e até das suas vozinhas a gritar 'Dôxi! Dôxi! Dôxi!'.


Saudades das praias, do sol e do calor.



Saudades dos golfinhos.


Saudades das cascatas, cada uma mais bonita do que a outra!


Saudades de regatear no mercado 3 pimpinelas e 5 malaguetas
(mas não tenho saudades do cheiro do mercado).


Saudades das nossas senhoras da fruta, onde passávamos todos os dias depois do trabalho.


Saudades da fruta maravilhosa ao mata-bixo, maracujás absolutamente perfeitos e mangustão, a melhor fruta do mundo que nunca mais voltei a comer.


Saudades da banana frita, o acompanhamento perfeito para tudo!



Saudades daquela que foi a minha casa por cinco semanas.


Saudades até do 'transporte colectivo' do hospital, onde cabia sempre mais uma pessoa.


Saudades das peculiaridades do Hospital (isto é o vestiário do bloco operatório da Ginecologia - não, não é uma parte do vestiário, a foto mostra mesmo tudo)





Hoje acordei com saudades e com vontade de voltar. Tenho saudades das paisagens e dos sabores e dos sentires daquela terra. Tenho saudades das pessoas que lá conheci. Imensas saudades do Yu e de lhe fazer cafunés e rir das suas palermeiras. Hoje se pudesse apanhava um avião e voltava lá, só para matar saudades.

Wednesday, May 1, 2013

Não imaginam a quantidade de vezes que comecei a escrever isto nas últimas semanas, para depois apagar e dizer: 'escrevo depois'.

Decidi que este é o meu último ano em Lisboa. A minha faculdade dá-me a oportunidade de ir fazer a grande maioria dos estágios em casa, por isso em Novembro volto para a 'terrinha'.

Tenho andado bastante preocupada com essa decisão, tenho medo de me sentir sozinha, de não me adaptar ao Hospital, de não saber voltar para casa dos pais. Mas acima de tudo tenho medo de 'perder' a ligação aos meus amigos de Lisboa - afinal, o sexto ano é um ano de estudo intensivo e não vai ser a mesma coisa estar à distância de um telefonema.

Apesar disso sei que esta é a decisão acertada: vou ter imenso para estudar, vou andar com humor daqueles que só os meus pais aturam (que remédio têm eles), e vai ser bom ter a comida feita, a roupa lavada e não estar rodeada de pessoas em stress, constantemente a perguntar que capítulos já li, qual é o meu esquema de cores e se estou a resolver perguntas no fim do capítulo ou não. E não vou estar sozinha: alguns amigos meus ficaram a estudar por lá e outros acabam agora o curso e devem voltar para casa.

Mas se sei isto tudo, se sei os pontos positivos e os negativos de ir e de ficar, se já os pesei e sei que o melhor é ir, porque é que fico taquicárdica de cada vez que penso nisso?

Wednesday, April 24, 2013

'De noite tudo são sombras.
E eu por elas hei-de andar.'

Monday, April 22, 2013

Há tempos um amigo meu disse-me que ouviu uma colega minha com quem eu estava a fazer um trabalho de grupo a dizer que eu era muito exigente, talvez exigente de mais para aquilo que o trabalho valia. Não vou mentir, sou exigente. Mas não sou mais exigente com os outros do que o que sou comigo mesma. Sempre fui assim. No ciclo toda a gente queria trabalhar comigo para ter boa nota, até perceberem que comigo tinham de trabalhar e que eu não fazia o trabalho por ninguém. No secundário a minha turma era melhorzinha, os grupos de matemática eram feitos pela professora pelas notas do teste anterior, e para os outros grupos juntávamo-nos sempre meia-dúzia com mais ou menos os mesmo objectivos, pelo que as coisas corriam bem. A única excepção foi um trabalho facultativo de biologia, em que o professor fez os grupos. Um dos elementos do meu grupo não apareceu em reunião nenhuma, o que fez com que decidíssemos não pôr o nome dele no trabalho. Não foi sugestão minha, mas eu concordei. Toda a turma ficou chocada, mas eu continuo a achar que foi a decisão correcta: o trabalho era facultativo, tínhamos todos 17 anos e só andava ali quem queria. Ele não foi prejudicado, só não foi beneficiado. Desde essa altura que não gosto de trabalhos de grupo.
A faculdade veio aumentar esse sentimento. Já apanhei de tudo: pessoas que não sabem nem querem saber, pessoas que até querem saber mas não sabem nada, pessoas que sabem e querem saber. Alguns correram bem, outros correram menos bem. Trabalhei algumas vezes pelos outros. Até que me fartei e decidi que não o ia fazer mais: saímos todos médicos e eu não tenho obrigação de fazer mais do que os outros. A verdade é que há semestres em que é difícil gerir o tempo, entre o que se gasta em aulas, no estudo, e nos trabalhinhos de grupo, as 24 horas do dia parecem não chegar, e ainda há que juntar a isso alguma vida pessoal. Apesar de tudo a faculdade é a minha prioridade, e o tempo para a vida pessoal é o que sobra quando o resto está feito. Nem toda a gente pensa assim, e isso custa-me a perceber, porque para mim há um princípio básico: a vida pessoal das outras pessoas tem o mesmo valor do que a minha.

Sunday, April 21, 2013

A todos aqueles que gostam dos Beatles, recomendo vivamente!

(Recomendaria a sessão na Cinemateca Júnior, mas foi ontem)

Thursday, April 18, 2013

Lembro-me do dia em que o meu irmão a recebeu. Uma amostra de cão, um monte pequenino de pêlo, que nem ladrar sabia. Cresceu connosco. Pregou-nos alguns sustos, um dos quais grande o suficiente para telefonarmos de urgência à veterinária a meio da noite e ela nos dizer para nos despedirmos antes de a levar para o bloco operatório. Salvou-a. Desde então de vez em quando contavamos a idade dela em 'anos que enganou a morte'. E foram muitos. Foi uma cadela perfeita, uma grande amiga de todos lá em casa. Só alguém que tenha um cão assim sabe a dor que sinto hoje. Foram 15 anos, o que corresponde a quase toda a vida de que me recordo.


(É nestas alturas que eu gostava de acreditar num céu para onde as pessoas e os cães vão depois de morrer, e onde são felizes para sempre)

Saturday, April 13, 2013

Se algum dia alguém me dissesse que a cadeira que me deixaria mais entusiasmada neste semestre seria Medicina Geral e Familiar eu rir-me-ia na cara dessa pessoa. E no entanto aqui estou eu.

(As aulas são uma treta mas o nosso projecto de investigação é tão giro!)

Thursday, April 11, 2013

As pessoas à minha volta eram todas bastante mais velhas e tinham um aspecto bem mais desesperado do que o meu. Eram quase oito horas, de um sábado à noite, e éramos quatro. Eu percorria os títulos dos livros com os olhos, à procura de um que me chamasse à atenção; à minha esquerda uma senhora dos seus cinquentas passava a mão em todos, tirando um de vez em quando para ler uma dezena de frases antes de o devolver à prateleira; sentada num banco ali perto uma mulher folheava um dos livros da OSHO, sendo interrompida ocasionalmente pelo filho com não mais de seis anos que se ia entretendo com os livros infantis; ao meu lado um homem de raça negra olhava fixamente para os livros de culinárias, na esperança de que ninguém reparasse que na primeira oportunidade passaria para a prateleira do lado. Éramos, sem dúvida, um grupo estranho. Inevitavelmente perguntei-me o que os teria levado a ir às oito da noite de um sábado à secção de livros de auto-ajuda e espiritualidade de uma conhecida livraria de um centro comercial de Lisboa. Por momentos senti-me mal, como se não tivesse o direito de ali estar a partilhar com aquelas pessoas um momento que podia ser para elas decisivo, como se as razões para eu ali estar não fossem tão válidas como as delas. Na verdade, nem sequer sabia bem quais eram as razões para ali estar.
Os meus olhos passaram por um livro que a senhora ao meu lado acabara de pousar. Na capa estava escrito com letras garrafais 'O Dalai Lama', seguido de um outro nome e, só no fundo, o título do livro: 'Um Guia para a Vida'. Com aproximadamente 300 páginas, era o resultado de várias conversas entre Dalai Lama e um psicólogo americano sobre os mais diversos temas e cujo objectivo era perceber o ponto de vista do budismo sobre uma série de situações, e de que maneira é que os princípios do budismo poderiam ajudar a sociedade ocidental na busca da felicidade. Gostei do formato: afinal de contas, sempre gostei da confrontação e discussão de ideias e princípios. Deixei um sorriso aos que por lá ficaram e dirigi-me à caixa.

O livro tem-me acompanhado nos últimos tempos. Vou a meio e, se não servir para mais nada, está a ajudar-me a ver o mundo com outros olhos enquanto o leio. Não sei se vai mudar a minha vida. Mas para já estou a gostar, e neste momento é o que importa.