Thursday, April 18, 2013

Lembro-me do dia em que o meu irmão a recebeu. Uma amostra de cão, um monte pequenino de pêlo, que nem ladrar sabia. Cresceu connosco. Pregou-nos alguns sustos, um dos quais grande o suficiente para telefonarmos de urgência à veterinária a meio da noite e ela nos dizer para nos despedirmos antes de a levar para o bloco operatório. Salvou-a. Desde então de vez em quando contavamos a idade dela em 'anos que enganou a morte'. E foram muitos. Foi uma cadela perfeita, uma grande amiga de todos lá em casa. Só alguém que tenha um cão assim sabe a dor que sinto hoje. Foram 15 anos, o que corresponde a quase toda a vida de que me recordo.


(É nestas alturas que eu gostava de acreditar num céu para onde as pessoas e os cães vão depois de morrer, e onde são felizes para sempre)

Saturday, April 13, 2013

Se algum dia alguém me dissesse que a cadeira que me deixaria mais entusiasmada neste semestre seria Medicina Geral e Familiar eu rir-me-ia na cara dessa pessoa. E no entanto aqui estou eu.

(As aulas são uma treta mas o nosso projecto de investigação é tão giro!)

Thursday, April 11, 2013

As pessoas à minha volta eram todas bastante mais velhas e tinham um aspecto bem mais desesperado do que o meu. Eram quase oito horas, de um sábado à noite, e éramos quatro. Eu percorria os títulos dos livros com os olhos, à procura de um que me chamasse à atenção; à minha esquerda uma senhora dos seus cinquentas passava a mão em todos, tirando um de vez em quando para ler uma dezena de frases antes de o devolver à prateleira; sentada num banco ali perto uma mulher folheava um dos livros da OSHO, sendo interrompida ocasionalmente pelo filho com não mais de seis anos que se ia entretendo com os livros infantis; ao meu lado um homem de raça negra olhava fixamente para os livros de culinárias, na esperança de que ninguém reparasse que na primeira oportunidade passaria para a prateleira do lado. Éramos, sem dúvida, um grupo estranho. Inevitavelmente perguntei-me o que os teria levado a ir às oito da noite de um sábado à secção de livros de auto-ajuda e espiritualidade de uma conhecida livraria de um centro comercial de Lisboa. Por momentos senti-me mal, como se não tivesse o direito de ali estar a partilhar com aquelas pessoas um momento que podia ser para elas decisivo, como se as razões para eu ali estar não fossem tão válidas como as delas. Na verdade, nem sequer sabia bem quais eram as razões para ali estar.
Os meus olhos passaram por um livro que a senhora ao meu lado acabara de pousar. Na capa estava escrito com letras garrafais 'O Dalai Lama', seguido de um outro nome e, só no fundo, o título do livro: 'Um Guia para a Vida'. Com aproximadamente 300 páginas, era o resultado de várias conversas entre Dalai Lama e um psicólogo americano sobre os mais diversos temas e cujo objectivo era perceber o ponto de vista do budismo sobre uma série de situações, e de que maneira é que os princípios do budismo poderiam ajudar a sociedade ocidental na busca da felicidade. Gostei do formato: afinal de contas, sempre gostei da confrontação e discussão de ideias e princípios. Deixei um sorriso aos que por lá ficaram e dirigi-me à caixa.

O livro tem-me acompanhado nos últimos tempos. Vou a meio e, se não servir para mais nada, está a ajudar-me a ver o mundo com outros olhos enquanto o leio. Não sei se vai mudar a minha vida. Mas para já estou a gostar, e neste momento é o que importa.

Saturday, April 6, 2013

Felicidade.

Dou por mim a discutir o conceito de felicidade vezes e vezes sem conta, e a forma de a atingir. Há quem diga que a felicidade não é um ponto de chegada, é um processo. Há quem diga que a felicidade não é um objectivo final, mas o conjunto de todos os pequenos momentos em que nos sentimos bem. Talvez seja um processo que engloba todos os pequenos momentos em que vamos descobrindo quem somos e quem queremos ser enquanto crescemos. Talvez a felicidade se vá construindo. Talvez faça parte da construção da felicidade percebermos que o dia corre melhor quando tiramos dez minutos de manhã para tomar a nossa meia de leite à janela em vez de o fazermos num sítio feio e fechado; perceber que nos sentimos melhor quando saímos de casa com música nos ouvidos; perceber que cada vez nos apetece mais estar com alguém; e passar a fazer isso mais vezes. Talvez seja preciso coragem para ser feliz. Coragem para dizer: se a felicidade não é um fim, é um processo, se a felicidade não é um grande objectivo, é o conjunto dos pequenos momentos, claramente eu não estou a fazer as coisas como deve ser e está na altura de mudar. E mudar. Coisas grandes como decidir acabar com o que se construiu durante meia dúzia de anos e começar do zero. Coisas pequenas como decidir que se passa a tomar o pequeno-almoço sozinho à janela. Coisas que nem sabíamos que tinham importância, como passar a caminhar a olhar em frente em vez de olhar para o chão, olhar mais vezes à volta e apreciar a luz que o nosso país tem, dizer mais vezes 'bom dia' e 'bom apetite' e 'bons sonhos', agradecer mais vezes as oportunidades que a vida nos dá, quer seja poder estar a fazer aquilo que mais gostamos quer seja o simples facto de poder ouvir o cuco que canta agora.

Thursday, March 28, 2013


Como prenda de anos o meu irmão partilhou este vídeo comigo. Partilho-o convosco porque é das coisas mais bonitas que já vi.

Tuesday, March 26, 2013

Há muitas alturas em que não concordo com nada do que diz. (É uma das razões para achar que a grande maioria das coisas não se devem aos genes.) Como ninguém pode ter uma opinião contrária à dele, nessas alturas aceno com a cabeça ou digo o típico 'hum hum'. Até que solta um 'o tempo voa', enquanto olha para a mesa à sua volta. Penso 'ao menos nisso estamos de acordo'.

Faltam dois dias para eu fazer 23 anos. Vinte-e-três. Como é que isto aconteceu?

Thursday, March 21, 2013

Eis o que acontece quando numa qualquer manhã se resolve usar meios de transporte que não os habituais. Ambas as situações se passaram no Cais do Sodré.

Um homem qualquer de 20 e muitos anos, que eu nunca vi na vida, toca-me no ombro.
Ele: Desculpa, podias-me dar o teu número de telefone?
Eu: Desculpe?! Para que quer o meu número?!
Ele: Acho que é um bocado óbvio...
Eu: Não vejo o que há de óbvio nisso. Para além do mais sou casada. Tenha um bom dia.




Uma mulher com 60 e tal anos que, tal como na situação anterior, eu nunca vi na vida começa, do nada, a falar comigo na paragem do autocarro.
Ela: Aquele mocinho dos Açores ou Madeira continua desaparecido, não continua?
Eu: Desculpe?
Ela: O mocinho dos Açores, que desapareceu aqui no Cais do Sodré. Não chegou a aparecer, pois não?
Eu: Acho que não.
Ela: É tão triste. Já viu? Vem passar férias e desaparece.. É como aquela miúda inglesa. Mas essa eu tenho cá para mim que anda na pedofilia. De certeza. Este miúdo é que não sei. Mas se me perguntassem eu acho que foram as prostitutas. Lá o viram a pagar a conta da discoteca, viram que tinha dinheiro e alguém o seguiu. Sim, porque nas imagens da discoteca vê-se que ele sai sozinho... Viu as imagens?
Eu: Não, não vi..
Ela: E aquele homem de 69 anos que desapareceu na semana passada? Que se meteu no carro e se perdeu? Também não percebo.. Se teve cabeça para ir até não sei onde, não teve cabeça para voltar?! Tinha 69 anos, não tinha 80.
E isto continuou durante os 10 minutos em que estive à espera do autocarro. Acho que a senhora deve ter falado de todas as pessoas desaparecidas dos últimos 20 anos. Quando vi que ia para o mesmo autocarro que eu ia morrendo. O que vale é que se sentou nos lugares prioritários, e eu disse que preferia andar na parte de trás.

É por estas e por outras que eu gosto muito do meu metro e de andar bem cedinho. Assim não tenho ninguém a chagar-me a alma.