Monday, April 16, 2012

Não sei se algum dia aqui tinha dito que vivo com a minha irmã mais nova. Tem menos dois anos (vinte e dois meses, na realidade) do que eu e, tal como todos os irmãos mais novos, gosta imenso de me chatear (na verdade acho que às vezes nem faz de propósito. Mas chateia na mesma)

No fim-de-semana os meus pais vieram visitar-nos e trouxeram um Pão-de-Ló de Alfeizerão. Claro que hoje quando vinha no metro depois das aulas me lembrei disso e fiquei com vontade de comer uma fatia. Eis que quando chego a casa me deparo com isto:



A senhora minha irmã comeu em 24 horas MEIO Pão-de-Ló e ainda foi roubar a parte líquida da pequena fatia que me deixou! Digam lá que não é de perder a paciência!


(A sorte dela é que eu na maior parte dos dias até gosto dela. Se não fosse minha irmã de certeza que andava uns tempos a comer Pão-de-Ló de palhinha. Principalmente agora, que a Jo me ensinou a dar socos!)

Sunday, April 15, 2012

Histórias do Hospital

Na minha curta passagem pelo serviço de Ginecologia/Obstetrícia tive a oportunidade de assistir à seguinte conversa, a respeito de uma grávida que tinha sido colega de curso das duas pessoas que a assistiram no Serviço de Urgência:

A: Olhei para a C e só pensava "ela está tão velha! Será que eu também pareço assim velha?"
B: Aí, pois está, está magrérrima! E parece que tem mais dez anos do que nós!
A: E continua viciada em trabalho! Viste a reacção dela quando lhe disse que ia ter de ficar internada pelo menos 24 horas?! Disse logo ao marido que tinha de lhe trazer uns artigos para ler, que não conseguia ficar sem fazer nada! E quando eu lhe disse que era suposto ela descansar ainda me disse que era só meia dúzia!
B: É incrível! É que ainda está pior do que o que era na faculdade...


Não pude deixar de me rir e de me sentir um bocadinho mal, porque não consigo condenar a senhora por resolver ler artigos quando está internada. E até me perguntei por breves momentos se eu não virei a ser aquela gravida daqui a uns anos.

(Magrérrima e a parecer dez anos mais velha? Não de certeza.)

Wednesday, April 11, 2012

Nunca consegui ganhar o hábito de me sentar a tomar o pequeno-almoço antes de sair de casa quando tenho alguma coisa para fazer de manhã. Numa grande parte dos dias pego em qualquer coisa antes de sair de casa e como durante a viagem de metro. Há uns tempos estava eu descansadinha a comer a minha maçã quando a senhora sentada ao meu lado, que já estava a olhar para mim há quase duas estações, me diz:
- Oh filha, desculpe estar-me a meter, mas não devia comer no metro! Isto está cheio de micróbios, ainda vai ficar doente!

Se fosse hoje respondia: Oh minha senhora, eu tenho todos os doentes infectados do serviço a tossir para cima de mim, não se preocupe com isso.

Tuesday, April 10, 2012

Na semana passada o meu pai ofereceu-me um iPad. Passei para aqui (sim, que isto está a ser escrito no iPad) livros, artigos e uma panóplia de aplicações que facilitam a minha vida enquanto estudante de Medicina (posso pesquisar um fármacos sem ter de abrir o prontuário?! Yuppi!). A utilização do iPad estava a ser realmente produtiva. Até na segunda-feira ter chegado à faculdade e a Jo me ter feito procurar jogos. Agora é meia-noite e um quarto e estou na cama jogar só mais um jogo de uma cabra que salta em troncos e vai contra águias. Obrigadinha, sim?!
O doente deu entrada no serviço de urgência. A história era a típica, e ao exame objectivo não tive dúvida nenhuma. Era um tumor já muito avançado. Pedi à minha tutora para fazer o exame objectivo, na esperança de que eu estivesse errada. Não estava.  Não era o primeiro tumor que eu palpava. Não era o primeiro doente com um prognóstico não muito bom que eu via. No entanto, lembro-me perfeitamente do doente. Fui a primeira pessoa a perceber o que se passava, e isso marcou-me.  Encontrei-o umas semanas mais tarde, numa consulta com a mesma médica. Vinha mostrar os exames, já depois de ter começado o tratamento. Os exames não mostravam nada de bom. Nesse dia cheguei a casa com uma nuvem de tristeza à minha volta. Ainda foi na altura em que tinha alguém a quem contar o meu dia, e fi-lo. Obtive como resposta um É por isso que eu sei que vais ser boa médica, porque te preocupas realmente com os doentes, e ficas realmente triste com um mau prognóstico. Na altura não tive cabeça para pensar sequer no que me tinha sido dito, e embora não me recorde exactamente da conversa que se seguiu, sei que não contestei a resposta que me tinha sido dada. Até hoje.

A doente deu entrada no serviço de urgência. A história era atípica, e quem estava por lá não teve muita facilidade em fazer o diagnóstico. A doente foi internada e eu vi-a dois ou três dias depois. A doente estava irresponsiva. Pedi à minha tutora para trocar de doente, para ficar com um doente que falasse ,para poder escrever uma história. Não autorizou. Passei grande parte da manhã a fazer exame objectivo. Quando acabei falei com a interna, que me deixou consultar o processo. Segui a doente de todas as vezes que estive no serviço, até ao início das férias da Páscoa. Os problemas iam-se acumulando, e fui-me embora com a certeza de que quando voltasse a cama já estaria ocupada por um outro doente qualquer. Hoje entrei no serviço a comentar com um colega que queria ver se era desta que escrevia uma história completa. Percorria o corredor em direcção ao quadro do serviço, e instintivamente olhei para a cama que tinha deixado quase duas semanas antes. -Bom dia, Dona A!     -Bom dia, senhora doutora!  Hoje entrei em casa com um sorriso na face. Não tenho ninguém a quem contar o meu dia, e por isso escrevo sobre ele num blog que não é lido por praticamente ninguém. Mas se tivesse alguém a quem contar o meu dia, e esse alguém me dissesse que achava que eu vou ser boa médica porque fico genuinamente feliz quando um doente fica bem, não iria contestar. Porque finalmente percebi o que há em comum entre todos os médicos que eu admiro (para além das capacidades técnicas, claro está). Não é a capacidade de ficar em baixo com um diagnóstico ou um prognóstico menos bom. É a felicidade genuína que sentem quando um doente com um prognóstico menos bom recupera, e o facto de isso ser o suficiente para compensar qualquer tristeza sentida antes. 

Sunday, April 8, 2012

Gosto de rotina, de tradições. A minha mãe a gritar da cozinha a eterna pergunta retórica, que já a avó da minha mãe gritava da cozinha dela, "Queres-me vir ajudar?". E vou. Preparamos juntas o coelho à caçador com a mesma receita de há cinquenta ou sessenta anos, os mesmos ingredientes, os mesmos passos pela mesma ordem, "e agora?". Quando nos sentamos à mesa regresso aos meus tempos de criança, sentada numa cadeira muito maior do que eu, o meu avô à cabeceira da mesa, a avó da minha mãe sentada à sua direita, a sorrir, "Bom apetite!". Os cheiros são os mesmos, os sabores são os mesmos. Tradição. Gosto da certeza de que há coisas que vencem o Tempo. De que um dia vou ser eu a gritar da minha cozinha a mesma pergunta retórica, "Queres-me vir ajudar?".

Friday, April 6, 2012

A tarde é de preguiça, passada no sofá com uma manta sobre as pernas. As torradas com doce de frutos vermelhos vêm substituir o iogurte com aveia e frutas ao lanche, agora que o frio voltou. O café é o de sempre, e aquece a alma, enquanto se planeiam e sonham os dias que estão para vir.