Friday, August 19, 2011

Às 16:22 do dia 18 de Agosto de 2011 a minha vida podia ter mudado completamente. Não mudou, e fico muito feliz por isso. Ainda assim, passadas umas horas de ter saído do consultório médico, ainda dizia um "gosto de ti" sincero às pessoas com quem falava por uma qualquer razão.

Thursday, August 18, 2011

Racionalidade vs. Irracionalidade

Quem me conhece bem sabe que sou uma pessoa bastante racional. (Talvez até um pouco em demasia.) Penso antes de agir e dou por mim muitas vezes a perguntar para os meus botões "Qual é a probabilidade de isto acontecer?", e por norma o grau de preocupação é proporcional à probabilidade e à gravidade do possível problema. Não sou do género de estudante de medicina que acha que tem as doenças graves e estrambólicas  todas, ou pelo menos nunca o acho verdadeiramente. Por isso, hoje uma grande parte de mim pensa "Isto não é nada, tem calma.". Mas existe também uma pequena parte que está a fazer de tudo um grande filme, e tenho medo. Porque há alturas na vida em que percebemos que não somos imortais, que estar na área da saúde não nos torna imunes a nada. Porque, mesmo estando há relativamente pouco tempo em contacto com a doença e os doentes, já vi situações em que estava tudo bem até que pura e simplesmente deixou de estar. E hoje são esses casos que passam em câmara lenta na minha cabeça, e que me fazem um nó no estômago do tamanho de um pêssego, que me dificulta a respiração e me dá náuseas ligeiras. Hoje sou irracional e tenho medo. Hoje tenho medo. Hoje tenho medo.

Thursday, August 11, 2011

Se a realidade fosse um filme-de-domingo-à-tarde

teria havido uma despedida, algo fantástico, como uma corrida à última da hora para entrar no comboio e um segurança a dizer no altifalante do aeroporto 'Last call for the flight number 7843, to Lisbon', enquanto se roubava um beijo, ou algo simples, um post-it escrito mesmo antes de sair de casa: 'Gostei da Holanda e gostei de ti.'.
Se a realidade fosse um filme-de-domingo-à-tarde, teria passado a acreditar em paixão à primeira vista, e em relações à distância, e em relações.
Se a realidade fosse um filme-de-domingo-à-tarde ter-me-ia apaixonado e a viagem de regresso teria sido penosa, mas depois ficaria tudo bem, porque um filme-de-domingo-à-tarde é um filme-de-domingo-à-tarde e fica sempre tudo bem.
Mas a realidade não é um filme-de-domingo-à-tarde, é, simplesmente, o conjunto de todas as coisas reais. E nenhuma destas o é.

Por isso, na realidade, estive na Holanda e vim. E não tinha ninguém a deixar-me no aeroporto e não tive ninguém a ir-me buscar. A realidade é essa.
Não tenho ninguém.

Saturday, August 6, 2011

Viagens de Verão - Holanda

À chegada só se vêm rectângulos verdes, separados por linhas de água e casas salpicadas aqui e ali. Quando se dá a volta e nos aproximamos e se prepara o avião para se fazer à pista, a densidade de casa aumenta, começam-se a ver bicicletas, e tudo parecer magnífico. Ainda não estive em Amsterdão. Mal cheguei ao aeroporto meti-me num comboio que, em 22 minutos, me trouxe a Leiden e ao meu irmão. Ontem demos uma voltinha à noite, enquanto decidíamos onde íamos jantar* e gostei do que vi. 


A cidade é calminha, os edifícios são bonitos, e, como diz um deles, "quase dá vontade de ficar aqui para sempre". A decisão hoje é: Roterdão ou Amsterdão para ver a Gay Parade?

*- Decidir onde jantar com 3 rapazes que não jantam sempre juntos mas na última semana jantaram sempre fora é complicado: 'Pizza!', 'Comi ontem...'; 'Grego', 'Comemos na terça...', 'Kebab' 'Isso comi eu na terça!', 'Mc' 'Oh, dieta Bruce Lee.....'. Até que acabaram por comer spare ribs, que ninguém tinha comido nos últimos tempos.

Monday, August 1, 2011

Sobre Coelhos e Lontras


Eu sou uma pessoa simpática, a sério que sou. Mas, apesar do que a maioria das pessoas pensa, também sou uma pessoa relativamente tímida (que recentemente começou a corar com muito mais frequência, por tudo e por nada). Por isso, se estivermos no meio de uma dezena de pessoas e resolveres oferecer-me um coelho de chocolate em pleno mês de agosto, eu vou agradecer muito menos do que devia e vou-me limitar a corar e apenas dizer 'obrigada', apesar de achar que foi algo muito querido. Para além disso, também sou uma pessoa muito distraída. Por isso, se resolveres oferecer uma rosa a todas as raparigas que estão num dado jantar, é provável que eu no fim me esqueça dela.

E é assim que as pessoas ficam com a ideia de que eu sou uma pessoa horrível.

Thursday, July 28, 2011

- Uma das coisas que imagino é daqui a trinta anos estar ao volante de um jipe grande - um BMW, por exemplo - a levar os meus dois filhos, que estão sentados no banco de trás, de camisa branca e calças bege, ao colégio. Não sei porquê, mas é daquelas imagens que espero mesmo que se concretizem...





Parece que de repente acordámos todos para a vida e percebemos que há mais para além da medicina. Dou por nós a falar sobre o futuro, uns com um brilhozinho característico nos olhos a falar de monovolumes e, presumo, a imaginar toda uma família numa ida de férias, outros a comentar a roupa que vão vestir aos filhso ao domingo, quando forem à pastelaria da moda (depois da missa?), outros ainda a tentar atirar número de filhos "não quero só um. dois não era mau. três tem aquela chatice de que sofre a Inês - Síndrome do Filho Sanduíche. quatro não era mau, mas era bom se houvesse um par de gémeos!". 

Acho que é para provar que não somos tão crominhos assim.


Wednesday, July 27, 2011

Já perdi a conta ao número de melhorias que fui fazer durante o curso. Por norma tento fazer tudo na primeira fase e tento fazer melhoria a tudo na segunda fase, mas nem sempre o faço. Por isso, no semestre passado resolvi ir melhorar um exame de primeiro ano - tinha tido 17 mas era um exame de Ética, que eu achei que não seria muito difícil de subir. Quando foi feita a chamada eu só conseguia pensar: estás no 3º ano e estás a fazer um exame de 1º; é bom que isto não te corra muito mal, caso contrário vais ser gozada para o resto da vida. O exame não correu muito bem nem muito mal e acabei por ter 17 na mesma, muito mais do que a maioria dos caloiros. Hoje o pensamento não é muito diferente, com a agravante de que o exame é de Introdução à Clínica. Ou seja, é medicina. É medicina e eu estou a acabar um estágio de dois meses, onde andei a ver doentes com algumas das patologias que hoje saem no exame. Tenho mais do que obrigação de tirar uma boa nota.

(Até porque, muito honestamente, estudei muito mais para o exame de hoje do que para o do ano passado. Pormenores.)